Carta aos mergulhadores

11.06.2015

Jacques Cousteau é considerado o pai do mergulho moderno. Junto com Émile Gagnan, inventou o equipamento de mergulho autônomo (com o uso do cilindro de ar comprimido) e, como já falamos aqui, muitas pessoas atribuem a ele a “descoberta” de Cozumel para o mundo.

 

 

Nascido na França, foi um oceanógrafo, ambientalista, ecologista e educador. Em 1974, fundou a Cousteau Society, organização ambientalista sem fins lucrativos que visa à conservação marinha, e é considerado um dos principais ativistas pró-ambiente do mundo.

 

Se estivesse vivo, hoje completaria 105 anos. Abaixo, reproduzimos um texto de sua autoria, “Carta aos mergulhadores”, como homenagem ao dia do seu aniversário.

 

“Como todos os seres humanos, nascemos no coração marrom da mãe-terra. Temos braços e pernas e respiramos oxigênio que entra em pequenos pulmões. Passamos grande parte da nossa vida na posição vertical, que nos dá uma maior autonomia e um maior conforto na terra. Vistos superficialmente, somos iguais a todos os seres humanos.

 

Mas, analisando um pouco mais fundo, alguma coisa nos faz diferente. Nascemos com os olhos acostumados ao azul das águas. Temos um corpo que anseia pelo abraço do mar. E um pulmão que aceita grandes privações de ar apenas para prolongar nossa vida no mundo azul. Somos homens e mulheres de espírito inquieto. Buscamos na nossa vida mais do que nos foi dado. Passamos por grandes provas para aproximar-nos dos peixes. Transformamos nossos pés em grandes nadadeiras, seguramos o calor do nosso corpo com peles falsas e chegamos até a levar um novo pulmão em nossas costas.

 

E tudo isso para quê ? Para podermos satisfazer uma paixão. Um sonho. Porque nós, algum dia, de alguma maneira, fomos apresentados a um mundo novo. Um mundo de silêncio, de calma, de mistério, de respeito e de amizade. E esta calma e este silêncio nos fizeram esquecer da bagunça e da agitação do nosso mundo natal. O mistério envolveu nosso coração sedento de aventura. O respeito que aprendemos a ter pelos verdadeiros habitantes desse mundo. Respeito esse que, só depois de ter sentido a inocência de um peixe, a inteligência de um golfinho, a majestade de uma baleia ou mesmo a força de um tubarão, podemos compreender.

 

E a amizade. Quando vamos até o fundo do mar, descobrimos que ali jamais poderíamos viver sozinhos. Então levamos mais alguém. E esta pessoa, chamada de dupla, companheiro ou simplesmente amigo, passa a ser importante para nós. Porque além de poder salvar nossa vida, passa a compartilhar tudo o que vimos e sentimos. E em duplas, passamos a ter equipes. E estas equipes passam a ser cada vez maiores e mais unidas. E assim entendemos que somos todos velhos amigos, mesmo que não nos conheçamos. E esse elo que nos une é maior do que todos os outros que já encontramos. E isso faz que nós, mais do que amigos, sejamos irmãos. Faz de nós, mergulhadores.”

 

Jacques Yves Cousteau

(11/jun/1910 – 25/jun/1997)

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